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janeiro 26, 2021

Amizada-me

- Mas há? 

- Claro que não! Se houvésse, já eu os tinha comprado!

Saíram então os dois do supermercado, saltaram para o meio da estrada, e aguardaram o próximo carro que por cima lhes passasse. Passou um minuto. Dois. Uma hora. Duas. Mas nada. Nada de carros. Nem camiões, bicicletas, triciclos, ou maratonistas. 

Nada ali passava. Deserta estava a estrada. Confinados todos estavam, no interior dos seus lares. Não por suas vontades. Mas porque um vírus percorria a cidade. O país. O continente, e o mundo. 

E todos o temiam. E ele era livre. Tão livre!



novembro 17, 2020

Maçarocas à solta

E então, mamã? - pensou o pequeno roedor, acotovelando-se por entre os demais.

Ninguém ali podia contar os dedos, era proibido. Mais ou menos àquela hora, as ordens emitidas seriam subtilmente apagadas dos seus minúsculos cérebros.

Ó, quanto tempo passaram os cientistas a tentar penetrar nos seus pensamentos. Até que conseguiram. Mas então veio a covid-19. E tudo mudou. Setenta e cinco por cento de dezoito pessoas não cumpriram o recolher obrigatório e, como tal, desapareceram do mapa. Tal qual os filmes a preto e branco de antigamente.

Não seria de estranhar alguém dar conta do recado e chamar algum super-herói para salvar a humanidade. Mas super-heróis são fictícios, e quem tem boca vai a Roma. Excepto se já estiveres em Roma. Aí então vais querer sair. Para teu bem. 



maio 03, 2015

Ricochete antagonista

Se te pões a ler isto, não sei onde vais parar. É que nem eu próprio sei o que vou escrever. Por exemplo, no final deste texto, voltarei a ler o princípio e penso: epá... isto não tem nada a ver com coisa nenhuma. Tipo, daqui a cinco palavras já estou a escrever contundências paragráficas banais. Agora perguntas tu: What? Que raio...
Pois, viste? Eu avisei.
Que tenhas bons sonhos.
Ah! Já me ía esquecendo... Alguém viu hoje o sétimo planeta a contorcer-se? Não? Caramba pá, lamento. Agora só daqui a quatrocentos e treze anos.


março 19, 2015

Cloroformidina

Detergente para cavalos, rodados aleatoriamente sem demografia latente. Virias sem querer pedir algo emprestado. Algo mais que o teu costumeiro vício desgarrado violante. Saberías o que fazer, mas nada dirias àquela hora da noite. Propositadamente revelei-te a chave do cofre, mas mesmo assim não tiveste coragem. Desataste por ali fora sem pijama, mas cuidando a lama sob teus pés. Não voltes. Eu já lá estou te esperando...


abril 25, 2013

Poema enviozado

Quando começo a escrever, o caracol desliza
As núvens chovem e eu como pizza
Se eu soubésse anteriormente, sería tão giro
Mas como não sabia, pra que lado me viro?

Abril é engraçado, tem uns dias quentinhos
Confunde-me o calendário
Chega a perturbar o horário
Mas falemos de patinhos

Essas criaturas tão viris
Repletas de penas coloridas
Escuta e ouve o que ele diz
Antes que se roubem mais vidas

A poesia tem que se lhe diga
Pois em momentos que eu for vivo
Pelo campo colho uma espiga
E não termino este verso a rimar

Ó, pena, assim nem rima pobre há
Pois para que belo ficásse o poema
Teria de alterar todo o esquema
De modo que tudo o mais viésse de lá

Estou a ficar cromo nisto
Talvez ganhe um prémio nobel
Irei buscá-lo de automóvel
Que de outra forma eu não resisto

Isto é giro, é sim senhor
Alivia-me a alma, tira-me a dor
E pra terminar esta bela estrofe
Não me chateies que hoje estou off